Mattelart
defende que a tecnologia é importante, porém, merece mais destaque que ela, o
próprio ser humano. Para ele, o que mais importa é a forma como lidaremos com
as ferramentas tecnológicas e não a qualidade das mesmas.
Considera
irrealizável uma igualdade social por meio da tecnologia, afinal, estamos
reproduzindo na rede a sociedade desigual em que vivemos. Por esse motivo, nega
o conceito de “aldeia global”, termo que pressupõe que estamos todos
interligados.
Mattelart
apoia os protestos por uma mídia democrática e menos dependente do Estado que,
segundo ele, tem se apoderado cada vez mais dos veículos de comunicação a fim
de construir ideologias.
Ele
também diz que, a internet não pode ser o único meio visto como “democrático”,
como ele mesmo ressalta, não é. Outras mídias também têm de tomar a sua forma
universal, para fugir do despotismo.
Abaixo, entrevista concedida em 2009 ao
jornal Il Manifesto, ao repórter Giuliano Batiston. Tradução de Moisés
Sbardelotto, do Instituto Humanitas Unisinos.
Há alguns dias, foi publicado o
relatório anual sobre o estado do jornalismo norte-americano (“State of the
News Media”, do Pew Project for Excellence in Journalism), em que foram
analisadas, entre outras coisas, as repercussões da crise econômica sobre o
sistema midiático. O senhor considera que a crise pode comprometer
posteriormente o pluralismo da informação?
Armand Mattelart – A crise econômica não fez
outra coisa a não ser acelerar algumas lógicas já presentes nas sociedades de
natureza capitalista e se combinou com um outro elemento importante de
aceleração, a guerra contra o terrorismo. As mídias foram, de fato,
instrumentos indispensáveis para legitimar a idéia da guerra e para justificar
a tese de que existiam armas de destruição em massa no Iraque. O problema do
pluralismo da informação, portanto, se tornou alarmante já com a guerra contra
o terrorismo, a partir de 2001, e hoje é agravado pela crise econômica. Vários
governos buscaram se aproveitar da situação para assegurar uma “tomada” mais
sólida dos sistemas midiáticos, e com isso quer dizer o sistema audiovisual e o
das novas mídias, incluindo a Internet.
Hoje,
nas democracias liberais, parece-me que a tendência é legitimar a ideia de que
os Estados devem dispor de maior poder sobre as mídias. Dou-lhe um exemplo
concreto: na França, Sarkozy decidiu eliminar a publicidade da televisão
pública, mas por trás dessa escolha se esconde a tentativa de introduzir um
mecanismo com o qual a presidência quer se assegurar da nomeação dos
responsáveis do serviço público, reforçando o poder que exerce sobre a TV
pública. Esse exemplo, junto com tantos outros, revela o surgimento sempre mais
evidente de lógicas autoritárias, e é à luz de tais lógicas que devemos
analisar a questão do pluralismo das mídias. Por isso, é muito importante que
os movimentos e as forças sociais de oposição intervenham não tanto sobre as
mídias em si mesmas, ou a partir das mídias, mas a partir das ruas, das
manifestações. Só desse modo poderemos contestar a tentativa de instaurar um
rígido controle estatal sobre as mídias.
Em “História da utopia
planetária”, o senhor escreve que “a chave de volta do modelo tecnoglobal de
reorganização das sociedades” segundo o modelo neoliberal é a segurança, e o
senhor dedicou um dos seus livros, “La globalisation de la surveillance. Aux
origines de l’ordre sécuritaire” (Editora La Découverte, 2007), justamente às
sociedades da vigilância e à difusão das lógicas de segurança. Pode nos
explicar qual é a ideia principal do seu livro?
Armand Mattelart – A difusão das políticas de
segurança é uma questão essencial, porque remete ao próprio modo em que
definimos as sociedades em que vivemos. Uma vez, falava-se de sociedades
industriais, depois de sociedades disciplinares – é só pensar em Foucault ou em
Deleuze, que evocava a “sociedade do controle” –, ou ainda as sociedades
administrativas, as sociedades em que os princípios de organização
administrativos se estendem a todas as instituições da sociedade.
A partir
de 2001, parece-me, ao invés, que a “necessidade” de intervir contra o
terrorismo constituiu o pretexto para afirmar um outro tipo de sociedade: a
sociedade da suspeita. Desse modo, o problema da segurança nas democracias
liberais encontrou sempre mais frequentemente uma “solução” por meio do recurso
à tecnologia, da vídeo-vigilância aos testes de DNA, aos passaportes
eletrônicos.
Entramos
em uma era em que o modo de governar e o exercício do poder se baseiam na
rastreabilidade dos indivíduos e dos grupos sociais. Contextualmente, está em
curso uma profunda transformação da própria idéia do Estado e dos modos em que
se exerce a sua autoridade, por meio de uma radical revisão do direito penal e
graças à configuração de um novo “perfil jurídico estatal”. O Estado sempre
mais frequentemente é reestruturado a partir de uma noção, a de segurança
nacional, que contradiz a ideia da separação dos poderes e privilegia o poder
executivo sobre o legislativo e o judiciário.
Só
considerando essa reconfiguração poderemos compreender as novas formas de
vigilância. Buscarei explicar esse fenômeno, que é de natureza geral, com um
exemplo: há um ano, na França, foi publicado o relatório sobre a segurança
nacional. A coisa mais interessante desse relatório é que se faz referência à
noção de segurança nacional a partir da ideia do risco internacional, em outro
termos, Al Qaeda. Na França, portanto, como nas outras democracias liberais,
vem-se afirmando a ideia de que a gestão da segurança interna e da externa
estão intimamente ligadas. Isso, entre outras coisas, equivale a dizer que a
função do Exército se define sempre mais como uma função de controle do
território, dando vida a fenômenos como o relatado no filme “Tropa de elite”,
no qual, com o pretexto da luta contra o narcotráfico, as tropas especiais do
Exército brasileiro intervêm nas favelas.
O senhor sempre foi crítico com
relação aos que atribuem virtudes taumatúrgicas às tecnologias e creem que as
redes de informação podem, por si mesmas, revolucionar as relações sociais e
derrotar as lógicas de marginalização social e política. O perigo, segundo a sua
análise, é que a difusão das redes de informação pode transformar a
marginalização em apartheid. Pode nos explicar melhor o que o senhor quer
dizer?
Armand Mattelart - A partir do telégrafo, todas as
tecnologias contribuíram para “desfechar” o mundo. Se analisarmos a história da
comunicação, nos damos conta que os sistemas de comunicação tornaram possíveis
os fluxos de mercadorias, pessoas e ideias, e, nesse sentido, a comunicação,
sem dúvida, tem um valor positivo. Porém, as sociedades liberais se fundam
sobre a ideia da ordem, que implica um controle dos fluxos: falamos tanto de
liberdade de comunicação e de informação, mas nas democracias liberais não se
pode efetuar verdadeiramente uma livre escolha se esta contradiz os fundamentos
do liberalismo, a razão de Estado e a do mercado.
Para
voltar à sua pergunta, desde o início da história da comunicação existiu uma
“ideologia da comunicação”, segundo a qual os desenvolvimentos da tecnologia
automaticamente favorecem a democracia. Pessoalmente, acredito que se trate de
uma ideologia salvífica, redentora, que defino como “tecno-determinismo”. A
ideia de que as redes da informação por si mesmas podem garantir maior
democracia não me convence: de resto, a contribuição da Internet à
revitalização do espaço público é de porte muito reduzido se comparado aos
outros usos do mesmo instrumento, enquanto nos últimos dez anos pouco ou nada
foi feito para resolver a questão do abismo digital.
No que
se refere ao potencial democrático da rede, acredito que a rede descentralize,
mas ainda estou convencido de que, a partir da descentralização, podem-se
produzir novas formas de poder e de marginalização. Por isso, hoje considero
que é importante contrastar a ideologia da comunicação defendida por aqueles
que colocam todas as suas esperanças na tecnologia em si mesma e que, ao mesmo
tempo, é essencial um trabalho de reapropriação social das tecnologias. A
possibilidade de se apropriar e de gerir socialmente a tecnologia é uma questão
de natureza estratégica fundamental.
O senhor é um dos maiores
estudiosos da mundialização dos sistemas de comunicação, mas, diferentemente de
outros especialistas na matéria, sempre recusou polemicamente o que define como
“o mito tecnoliberal do Estado-nação”. Em “História da sociedade da informação”,
o senhor reprova, por exemplo, Nicholas Negroponte por “não deixar de bater na
tecla do fim do mediador coletivo que é o Estado-nação”. Qual é a sua posição?
Armand Mattelart – O mito do pós-nacional impediu
que se compreendessem as forças geopolíticas que operaram, e que operam, nas
sociedades contemporâneas. É uma noção muito vaga, que se encontra nos
documentos oficiais da Unesco, nos escritos dos teóricos da esquerda e nos dos
“doutrinários tecnocráticos”, como Negroponte. Sobretudo, é uma ideia que traz
consigo o risco de que sejam negados os recentes processos de reconfiguração
das funções do Estado, por muito tempo desaparecidos do horizonte crítico.
Segundo esse mito, hoje, de um lado, estaria a sociedade civil e, do outro, os
atores econômicos transnacionais, enquanto que o futuro nos reservaria apenas o
choque entre essas duas forças.
O que
falta é o papel que o Estado desempenha e continuará a desempenhar, que tenta
se redefinir justamente a partir da discrepância entre esses dois atores. Como
vimos, à medida que o Estado reforça as funções do Exército, recupera o direito
ao uso da força e da violência e se coloca de novo como regulador do sistema
internacional, o mito do fim do Estado-nação se choca com a evidência dos
fatos.
Mas continua
existindo um perigo: que no novo intervencionismo do Estado ou nas
nacionalizações dos bancos se reconheça um elemento necessariamente positivo. O
Estado regulador, pelo contrário, é um falso progresso: é verdade, precisamos
de regras e deve-se regular o funcionamento dos circuitos bancários, mas, para
que a regulamentação sirva verdadeiramente para revitalizar a democracia, deve
ser associada a novos atores sociopolíticos, aqueles até agora permaneceram
excluídos. É preciso reencontrar as raízes da soberania popular, porque, de
outra forma, as novas formas de regulamentação tenderão inevitavelmente a
reforçar o poder do Estado sobre os cidadãos.
Devemos
indicar novas formas de participação para a sociedade: se não as encontrarmos,
a solução das grandes questões colocadas pela crise climática, pela crise
financeira (que é uma verdadeira crise de civilização), pela crise alimentar,
nos levará rumo a sociedades ainda mais autoritárias.
A entrevista pode ser acessada pelo link:
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