Armand Mattelart é comunicólogo, professor da Universidade Paris 8, autor de inúmeros livros sobre Comunicação. Trabalhou durante mais de dez anos (décadas de 60/70) no Chile, atuando na área de comunicação e no governo popular de Salvador Allende. Com o golpe militar no Chile, deixou a América Latina. Voltou a lecionar e a pesquisar na França, muito embora tenha continuado a participar de eventos e a estudar a realidade comunicacional latino-americana. A partir de reflexões sobre o Brasil, Armand Mattelart escreveu Carnaval das imagens. Também tem publicado em português os livros: A cultura contra a democracia? O audiovisual na era tecnológica ou transnacional; Comunicação mundo; História das Teorias de Comunicação; A invenção da Comunicação. Atualmente ele orienta pesquisas na área de mídias e estratégias de produção. Esteve no Brasil para o XX Congresso da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação Intercom, realizado em 1997.
Uma de suas obras:
Em 1971, o chileno Ariel Dorfman e o belga Armand Mattelart escreveram "Para Ler o Pato Donald", um livro que denunciava os personagens de Walt Disney como propaganda imperialista. Absurdamente, o título deste livro é aquele que nas estórias é mostrado como alguém que participa à contragosto das aventuras de Tio Patinhas em busca de riquezas.
O livro denunciava, por exemplo, o Pato Donald e seus sobrinhos pela ausência de uma família normal, com pais e filhos, e por não mostrar nada relacionado a sexo, nascimento e morte. Na visão dos autores, isso seria um esquema perverso do poder econômico para apagar o passado e o futuro dos personagens e destruir as relações familiares e a colaboração entre pais e filhos. Dorfman e Mattelart provavelmente condenariam Monteiro Lobato ao gulag: Pedrinho e Narizinho eram criados pela avó e as pobres crianças brasileiras ficaram à mercê dos seres assexuados Emília e Visconde de Sabugosa.
A comédia do socialismo paranóico continua com os autores declarando que o único personagem que não buscava recompensa financeira e só ajudava os outros era o Mickey e desconfiavam de seus gestos solidários. Os Irmãos Metralha também foram condenados pelos autores por não serem comunistas o suficiente: "Eles desejam o dinheiro para serem burgueses, ... e não para abolir a propriedade".
Até o uso das cores nas revistas teria sido planejado pelos capitalistas malvados para incutir nas crianças a apreciação pela "novidade tecnológica" pois os cenários da casa do Pato Donald e os gorros do Huguinho, Zezinho e Luisinho seriam os mesmos mas as cores mudavam de um quadrinho para o outro.
Vários dos quadrinhos que constam no livro foram adulterados por Dorfman e Mattelart. Em um deles, os sobrinhos do Pato Donald ensinam ao povo de Quadradópolis "a curvar-se diante dos governantes". Na revista original que todo mundo leu constava apenas que eles ensinaram uma música aos quadradopolenses.
Nos países em processo de revolução, a Disney faria parte de uma invasão psicológica para "assassinar" a inocência das crianças. Assim, as crianças perderiam a inocência, se tornando burgueses perversos vendendo suas mercadorias e serviços para os consumidores em vez de se tornarem guerrilheiros inocentes capazes de fuzilarem e plantarem explosivos. Pernalonga, Tom e Jerry, Tintin e o Super-Homem fariam todos parte do mesmo esquema mas a Disney seria pior por serem uma "repressão" mais disfarçada.


Entrevista com a revista Famecos:
Revista Famecos - Quais as utopias possíveis para resolver os problemas deste formigueiro humano chamado Terra?
- Armand Mattelart – Houveram muitas utopias desde o princípio, sobretudo na nossa era, com a utopia cristã da grande família humana, de São João. Então, na modernidade, a verdadeira utopia começa a partir da conquista das Américas. A modernidade ocidental coincide com o despontar das utopias mundiais, podemos dizer globalistas, antes da existência desta palavra.
RF - E na contemporaneidade, como se dão estas utopias?
- Mattelart – Bem, digamos que há dois tipos de utopias: as que são herdeiras das utopias concebidas pelos reformadores sociais do século XIX, voltadas para a justiça social, a igualdade, etc.; e as utopias que eu não chamaria de utopias, mas quimeras ou tecnoutopias, que são os discursos que acompanham a entrada das novas tecnologias no mundo. São utopistas da informação. Pensam que da tecnologia podem reconstruir o mundo. Idealizam uma ágora mundial, uma aldeia global. Mas não as chamaria de utopia, porque para mim a palavra utopia é demasiado nobre.
RF - As palavras têm perdido o sentido dautopia, do social?
Mattelart – Cada vez mais as palavras correspondem a projetos pragmáticos. A globalização, por exemplo, é uma palavra que se traduz primeiro pela integração da rede financeira, antes de passar por outros campos. É aí que nasce o ideal reto da publicidade mundial. A palavra globalização nasce em dois lugares: primeiro nas problemá- ticas das campanhas publicitárias globais, na época em que ocorreram as megafusões entre grandes empresas de publicidade e de mercado, nos anos de 1984 e 85, e no mesmo período se implanta a noção de globalização a partir do desregramento das redes financeiras e bancárias. Esse é um pragmatismo. Depois a globalização invadirá, penetrará os campos da cultura, etc
RF - Como essa perda da poética das palavras se reflete no conceito da comunicação?
Mattelart – Progressivamente a noção de comunicação - que corresponde à comunhão, reparto, comunidade - tem perdido este sentido porque a tem substituído pela noção de progresso. A ideologia da comunicação tem empregado a velha ideologia do progresso infinito, linear, que fracassou. Hoje não se diz que um povo progride, mas que se comunica. Então quer dizer que avança. Porém, não vejo nenhuma correspondência entre o avanço real de um povo e a comunicação.
Por quê é importante estudar Armand Mattelart?
As contribuições críticas do pensamento de Armand Mattelart são uma matriz importante das idéias comunicacionais na América Latina. Sua trajetória histórica como pensador e militante político de esquerda. Crítico sistemático e radical do sistema capitalista-hegemônico, principalmente de suas estruturas informativas e de comunicação. Para analisar sua cosmovisão é esclarecedora a categoria de práxis, no sentido marxista de combinação vital de teoria e prática. Quando Mattelart propõe uma comunicação popular-alternativa, prevê a necessidade de que o povo participe do processo de produção das mensagens, sendo, ao mesmo tempo, emissor e receptor, e podendo transmitir uma informação mais próxima de sua realidade, Em suas obras, Mattelart critica profundamente as concepções lineares e mecanicistas que pensavam a democratização da comunicação limitando-a ao acesso aos meios e à mudança de conteúdos. Ele previa a necessidade de uma transformação radical das práticas profissionais; das formas de organização e estruturação das indústrias culturais, do controle do processo de planejamento, produção e circulação das mensagens; das relações entre comunicação e educação; da construção de uma consciência social e de pensar numa reformulação profunda dos meios de comunicação de massa.

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