Hey pessoal!!! Aproveitando essa semana de Armand Mattelart, venho trazer a vocês uma entrevista que ele concedeu quando veio participar da FNDC (Forúm Nacional pela Democratização da Comunicação) ocorrido em Porto Alegre em 2005.E para quem ainda não conhece o digníssimo Armand Mattelart, olha a fotinho dele aí do lado. Auxílio visual para o povo!
Agora chega de enrolações e vamos direto aos melhores trechos dessa entrevista concedida à equipe da FNDC (matéria completa disponível no link ao final da entrevista).
- Como o senhor observa a ofensiva do capital financeiro mundial sobre a indústria da comunicação e do entretenimento?
Este é um fenômeno que responde a uma lógica global. A desregulamentação do sistema mundial de telecomunicações teve um papel nodal neste processo já que precipitou a aproximação das indústrias de conteúdos e das indústrias continentais. Este processo é aberto pela onda de choque mundial originada nos Estados Unidos, em 1984, com o desmantelamento do quase monopólio do sistema doméstico, mas ganha realmente força a partir de 1998, com o acordo da Organização Mundial do Comércio (OMC) que generaliza a "liberalização" das telecomunicações. A título de exemplo, basta recordar a megafusão AOL-Time-Warner-CNN no início do novo milênio, seguida de outra, o grupo francês Vivendi- Universal. O "hubris" [termo grego que designa a confiança exagerada do herói em si mesmo] destas operações explica também seus tropeços posteriores e os da chamada "nova economia". A concentração alcança todos os setores das chamadas indústrias culturais. Desde a imprensa, os livros e as livrarias até a rádio-televisão, passando pela indústria discográfica. Ela se reforça nos países que já possuíam altos índices de concentração e estréia nos países que pareciam constituir uma exceção. Inclusive na França, pátria da doutrina da "exceção cultural", três ou quatro mercadores de armas e empresas da construção civil controlam a maioria dos meios de comunicação. E o que dizer da Itália de Silvio Berlusconi, que construiu seu poder político apoiando-se em seu império midiático, que extravasa amplamente o campo das redes de televisão. O problema é tamanho que em 2004 o Parlamento Europeu alertou sobre o risco que a liberdade de expressão e de informação correm com a posição dominante de um punhado de grupos midiáticos e convocou os responsáveis da União Européia a elaborar uma diretriz que salvaguardasse o pluralismo dos meios ameaçados pela concentração e a homogeneização crescente do modo de tratar a informação e seu conteúdo. Os atores do oligopólio midiático incorporaram em suas estratégias de lobby a dimensão política dos debates internacionais sobre a comunicação e as indústrias culturais. Suas entidades representativas estão presentes em todos os lugares onde se discute a "nova ordem mundial da informação" (lema do qual elas se apoderaram em meados dos anos 90 quando o G-7 forjou a noção de "Sociedade Global da Informação"), exercendo pressões sobre os governos e as instituições internacionais com vistas a derrubar os marcos jurídicos que limitam as concentrações ou impedem as posições dominantes. Elas não toleram críticas a não ser as próprias.
- Neste contexto, guerra e cultura são dois lados de uma mesma moeda?
Como eu escrevi, a título de provocação, em meu livro "La Comunicacion-mundo", publicado no início dos anos 90, "a comunicação serve, antes de tudo, para fazer a guerra". A guerra é, portanto, um componente essencial da história da realpolitik da comunicação internacional ao longo do século passado. Assim como a paz é um componente das tecno-utopias da comunicação. Lembre-se da base ideológica do mito da "aldeia global", lançado por Marshall McLuhan? nos anos 60. Mas a entrada na era das cruzadas da "Global War", a guerra contra o terrorismo a partir do 11 de setembro de 2001, precipitou a redefinição da relação entre guerra, cultura e comunicação. Eu diria mais: entre guerra e os mecanismos de hegemonia cultural. Com o fim da guerra fria e o desaparecimento do primeiro "inimigo global", o comunismo, os estrategistas da "superpotência solitária" pensaram que, para estender o "Mercado global democrático" - isto é, levar o mundo para uma "comunidade pacífica de nações" solidificada pelos valores do mercado - teriam que explodir a acumulação de investimentos realizada nas mentalidades coletivas em todo o mundo pelas indústrias culturais dos Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Era preciso aproveitar-se da "Informacion Dominance", que gozavam os Estados Unidos e sua cultura, como suporte natural da universalidade. Deixar de recorrer às estratégias que implicavam no uso da força e, pelo contrário, tratar de convencer às demais nações que a agenda de prioridades para a instauração de uma ordem global regida pelo livre intercâmbio decidida pela superpotência solitária era o único caminho racional e razoável. Esta doutrina foi batizada como a estratégia do "poder macio" ou "soft power". A esperança desmedida depositada no poder da web e do ciberespaço como multiplicador dos estandartes culturais da universalidade norte-americana degradava este tipo de doutrina. A "Globar War" contra o terrorismo verteu o axioma sobre a construção metabólica da hegemonia cultural. Se reabilitou o uso da violência e da força para construir a ordem mundial. A desregulamentação global do estado de direito pelo imperativo da segurança estendeu consideravelmente a área de ação da propaganda, da manipulação, da desinformação e da mentira. E se não, da autocensura pelo medo da acusação maccarthista de "antipatriotismo". Por ocasião da guerra do Afeganistão e depois do Iraque, o símbolo do globalismo informacional - a rede de TV CNN - perdeu o monopólio que exercia desde 1991, durante a primeira guerra do Golfo, na construção do grande relato sobre o conflito. As televisões árabes transmitiram outra versão da guerra. O mesmo ocorreu nos países, como França ou Alemanha, que se opuseram oficialmente contra a intervenção militar no Iraque. De forma mais geral, a imagem internacional dos Estados Unidos deteriorou-se consideravelmente. Não apenas sua mídia mas também seu modelo de universalidade cultural sofreu uma crise de credibilidade.
- A indústria cultural, que antes dominava pelo apelo da fantasia pueril, agora parece arrebatar por doses maciças de violencia e sexo. A chamada Sociedade da Informação pode reverter este processo ao atribuir à comunicação um impacto civilizatório por si?
A própria noção de "Sociedade da Informação" tem uma trajetória longa e carregada de ambigüidades. Uma fonte importante de ambigüidades é o determinismo técnico que a sustenta. O que eu chamo da ideologia da conectividade. Da conexão técnica por si se supõe que deveria resultar forçosamente uma sociedade mais justa, mais democrática, sem "fraturas numéricas", uma civilização mundial que respeite as culturas. São precisamente estas ambigüidades que os atores da sociedade civil organizada nos movimentos sociais estão desmistificando hoje em todos os espaços institucionais onde se debate os usos das novas tecnologias da informação e da comunicação, que desenham um tipo de arquitetura das redes em escala mundial. É o que nos ensina, por exemplo, a participação destes protagonistas na preparação da primeira fase da Cúpula Mundial da Sociedade da Informação que ocorreu em dezembro de 2003, em Genebra, sob o patrocínio da União Internacional de Telecomunicações (UIT). Ao postular a necessidade da apropriação social do universo técnico como componente da democracia e, portanto, a necessidade de implementar políticas públicas de comunicação, o movimento social desestabilizava a crença no determinismo do mercado e da técnica, consideradas como "novas forças naturais".
- Existe receita para se democratizar a comunicação? As tecnologias de informação e comunicação (TIC) são um atalho para este caminho?
Não existe receita. O importante, me parece, é não se imolar sobre o altar das últimas tecnologias de informação e de comunicação. Apropriar-se delas mas sem ceder à amnésia que nos faz esquecer a longa e rica tradição de reflexão acumulada pelas experiências de usos populares de tecnologias anteriores como o rádio por exemplo. O caso da América Latina neste sentido é muito instrutivo.
- Com o surgimento da internet e da televisão por satélite o senhor continua lendo o Pato Donald do mesmo modo?
Sigo pensando, quase 35 anos mais tarde, que muitas das análises que Ariel Dorfman e eu fizemos em nosso livro "Para Ler o Pato Donald", que foi produto dos anos de vida e resistência no Chile popular, não perderam nada de sua atualidade. Sigo considerando-o como um manifesto que incita à rebelião frente a um modo de vida global cuja ambição megalomaníaca segue hoje sendo a de desdobrar pelo planeta um sistema de valores particulares como se fosse universal, o único possível para realizar a felicidade do gênero humano. Para se convencerem da permanência deste projeto imperial, eu aconselharia aos cépticos e descrentes a voltarem a ler o capítulo "Do selvagem bonzinho ao subdesenvolvido". O que estigmatizamos ali era nem mais nem menos a arrogância dos poderosos que pensam que a "redenção" viria do centro. Basta ver hoje como os discursos tecno-utópicos, que acompanham a expansão da internet e da televisão por satélite, reciclaram a velha ideologia "difusionista" segundo a qual a "inovação" ocorre de cima para baixo. O etnocentrismo está longe de ter desaparecido do mapa do planeta. A técnica oferece um campo ideal para ele encontrar um novo disfarce.
(Fonte: www.fndc.org.br/arquivos/e-Forum47.doc)
Enfim, acho que já falamos demais por hoje né? Quem quiser pode nos acompanhar também pelo Facebook.
Bons estudos e até uma próxima pessoal!

La cucaracha é barata.
ResponderExcluirÉ... eu sei. Acho que você não entendeu a piada...
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