terça-feira, 16 de outubro de 2012

Uma conversa com Pierre Lévy1
Em maio de 1998, Pierre Lévy, filósofo e conhecido "antropólogo do ciberespaço", esteve no Brasil, realizando palestras em diversas capitais. Em sua rápida passagem por São Paulo, realizou três conferências no quadro do seminário Ética e Semiótica, organizado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade (do Curso de Pós-Graduação de Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica/SP). Nessas conferências, surpreendeu não falando sobre redes eletrônicas ou ciências cognitivas, mas sobre seu "sistema filosófico da imanência, intrinsecamente hipertextual, icônico e interativo"... Apesar da apressada estada em São Paulo e de uma agenda já inteiramente tomada, foi com bom humor e generosidade que concedeu, em suas últimas horas na cidade, numa manhã de domingo, uma entrevista não programada à revista Interface. Lévy nos falou sobre comunicação, ciência, saúde, particularmente sobre as relações entre autonomia e saúde, e sobre como imagina algumas possíveis aplicações nesta área do software Árvores do Conhecimento, por ele desenvolvido, em colaboração com Michel Authier. Transcrevemos, a seguir, os principais trechos desta entrevista que, com descontração, o entrevistado transformou numa instigante e bem humorada conversa, marcada por um intenso brilho intelectual e pontuada por um riso solto, que, nitidamente, denota o imenso prazer do nosso interlocutor com as idéias que vai expondo e, de um modo visível, a sua alegria espontânea de pensar. Vale a pena chamar um pouco mais a atenção do leitor para esse singular estado de espírito - e não apenas porque ele traduz intensamente o "estado de espírito" da nossa conversa, mas também porque introduz adequadamente ao "humor" dominante no pensamento e na obra deste autor. Para reencontrar o tom de uma conversa apresentada apenas por escrito, este "estado" é, sem dúvida, a melhor pista. E é para acentuá-lo que citamos, como uma epígrafe à entrevista, um dos mestres de Lévy, também filósofo e historiador das ciências, o francês Michel Serres: "Para mim, pensar é como um vasto e unitário êxtase, feliz, que explode em pequenas gargalhadas, desconexas e, no entanto, reunidas sob a imensa superfície em movimento. Acima dos incontáveis Anjos, bochechudos e sopradores, em caótico alarido, avança um grande Arcanjo, vento por trás das asas, cuja vontade me empurra para onde desejo ir." (A Lenda dos Anjos. SP, Aleph, 1995, p.33) Para um melhor conhecimento do autor entrevistado e de sua obra, incluímos alguns dados biográficos sumários, quase todos extraídos do site na internet do IIIº Mundial da Comunicação, realizado em Quebec, de 31 de março a 16 de abril de 1998, no qual Pierre Lévy foi um dos convidados especiais. Pierre Lévy nasceu em 2 de julho de 1956, em Tunis. Completou inicialmente estudos de História e, a seguir, de História das Ciências. Tem sua vocação de pesquisador definitivamente despertada, ao seguir os cursos de Michel Serres na Sorbonne. Em 1983, defende uma tese de Sociologia sobre a idéia de liberdade na Antigüidade, orientada por Cornelius Castoriadis, na Ecole de Hautes-Etudes en Sciences Sociales. Em seguida, passa a freqüentar os cursos noturnos de Informática do Conservatoire National des Arts et Métiers. Convencido do papel fundamental desempenhado pelas técnicas de comunicação e pelos sistemas de signos na evolução cultural em geral, logo assumiu como sua principal tarefa pensar a "revolução numérica" contemporânea nos planos filosófico, estético, educacional e antropológico. Trabalha por dois anos (1984/1985) na Ecole Polytechnique, em pesquisa sobre o nascimento da Cibernética e da Inteligência Artificial. Em 1987, publica sua primeira obra, A Máquina do Universo – criação, cognição e cultura informática. (Porto Alegre, Ed. ArtMed, 1998; ed. francesa de 1987), sobre as implicações culturais da informatização e suas raízes na história do Ocidente. A seguir, participa da equipe reunida por Michel Serres para redigir os Elements d'histoire des sciences (1989), escrevendo o capítulo sobre a invenção do computador. De 1987 a 1989, é professor convidado de Comunicação na Universidade do Quebec. Durante este período, aprofunda seus conhecimentos de Ciências Cognitivas e descobre o mundo nascente do hipertexto e da multimídia interativa. Essa experiência na América do Norte rende o seu segundo livro, o mais conhecido do público brasileiro: As Tecnologias da Inteligência – o futuro do pensamento na era da informática. (São Paulo, Ed.34, 1993; ed. francesa de 1990). De volta à Europa, começa a imaginar um sistema de escrita icônica e interativa: a escrita que agora poderíamos inventar, dispondo de suportes dinâmicos e interativos como as telas de um computador, ao invés de um suporte fixo, como tem sido, até aqui, o papel. Sistematiza um tal sistema de signos em A ideografia dinâmica – rumo a uma imaginação artificial? (São Paulo, Loyola, 1998; ed. francesa de 1991). De 1989 a 1991, ensina Tecnologias para a Educação e Ciências Cognitivas em Nanterre. A partir de 1990 passa a dirigir, em colaboração com Michel Authier, pesquisas e reflexões sobre as novas formas de acesso à informação que se tornam possíveis com os instrumentos numéricos. Juntos, formulam o conceito de "cosmopédia": enciclopédia em forma de mundo virtual que se reorganiza e se enriquece automaticamente, segundo as explorações e interrogações daqueles que nela mergulham. Já no quadro da chamada "Mission Serres" (de pesquisa e formulação de propostas de ensino à distância, lançada pela primeira-ministra francesa Edith Cresson - 1991/1993), Pierre Lévy e Michel Authier desenvolveram uma aplicação particular da "cosmopédia": o sistema das "árvores de conhecimento". Em 1992, co-assinam um livro com o mesmo nome, prefaciado por Michel Serres, descrevendo o projeto: As Árvores de Conhecimentos. (Escuta, 1998; ed. francesa de 1992). No mesmo ano, Lévy publica De la programmation considerée comme un des beaux-arts. (Paris, La Découverte, 1992), que analisa os atos cognitivos e sociais operados por programadores, mostrando que a Informática não é exatamente uma técnica "fria", como habitualmente se imagina. Desde 1993, é professor do Departamento de Hipermídia da Universidade de Paris-8, em St-Denis. Suas publicações mais recentes são: A Inteligência Coletiva – por uma antropologia do ciberespaço. (São Paulo, Loyola, 1998; ed. francesa de 1994) e O que é o virtual? (São Paulo, Ed.34, 1996; ed. francesa de 1995). Nesta última obra, Lévy analisa a mutação contemporânea do corpo, da cultura e da economia, no sentido de uma virtualização crescente, sem adotar um ponto de vista catastrofista, mas percebendo neste movimento o prosseguimento do processo de hominização, isto é, o prosseguimento do processo, não terminado, de surgimento do gênero humano. Com a coragem, muitas vezes rara entre intelectuais de formação humanista, de ser francamente otimista em relação às possibilidades abertas à humanidade pelas novas tecnologias numéricas, Lévy não se restringe apenas a pensá-las no campo político (mesmo encabeçando o grupo dos que afirmam que um projeto de "tecnodemocracia" será tremendamente facilitado pela expansão das redes eletrônicas interligadas), mas vê novas possibilidades se abrindo, até mesmo no campo filosófico. Como deixou claro nas mencionadas conferências (26, 27 e 28 de maio de 1998) em São Paulo, Pierre Lévy também concebe a possibilidade de "um sistema filosófico da imanência, intrinsecamente hipertextual, icônico e interativo, uma espécie de I Ching do século XXI, que deveria ser consultado de maneira interativa na web, e servir de plataforma de orientação para pesquisas em Filosofia e Ciências Humanas, e servir de apoio à pesquisa-ação na área da Educação." (Cf. o texto do IIIº Mundial da Comunicação) Sem dúvida, um pensamento dos mais densos e sofisticados da atualidade, cujo melhor entendimento, e mesmo de algumas das idéias que são abordadas em nossa entrevista, exige um mergulho em maior profundidade em sua obra. E isso certamente merece ser feito, principalmente por aqueles que pretendem, não apenas compreender, mas efetivamente participar das transformações em curso no mundo contemporâneo. Eis, enfim, os principais momentos da entrevista concedida por Pierre Lévy à Interface... Interface - Buscando estabelecer uma primeira ponte com o campo da Saúde, é preciso dizer que neste campo a Comunicação é, com grande freqüência, tomada de um modo excessivamente instrumental, quase sempre reduzida a um conjunto de práticas, objetos, meios e tecnologias que podem auxiliar ou mesmo garantir o cumprimento de determinados objetivos colocados pelas instituições médico-sanitárias, tais como a prevenção de doenças, a educação em saúde, a mudança de comportamento etc.. Nos seus trabalhos, contudo, a comunicação aparece com um sentido muito mais amplo, como um autêntico conceito filosófico. Para começar, gostaríamos que você nos falasse um pouco mais sobre esse conceito mais amplo de Comunicação. Pierre Lévy – Evidentemente, é um conceito enorme, já que há tantos sentidos possíveis para essa palavra... Se eu forneço alguns desses sentidos, isso só pode ser uma orientação deliberada e não uma definição objetiva. A primeira coisa que se pode dizer é que comunicar não é de modo algum transmitir uma mensagem ou receber uma mensagem. Isso é a condição física da comunicação, mas não é a comunicação. É certo que para comunicar, é preciso enviar mensagens, mas enviar mensagens não é comunicar. Comunicar é partilhar o sentido. E isso já é mais difícil... (risos) Já que isso quer dizer partilhar um contexto comum, partilhar uma cultura, partilhar uma história, partilhar uma experiência etc., progressivamente... Não é alguma coisa que se possa fazer imediatamente; é preciso já ter alguma coisa em comum para poder se comunicar. E pode-se dizer que comunicar é tentar ter alguma coisa em comum. Portanto, é, necessariamente, um verdadeiro encontro, a comunicação. Não é só transmitir uma mensagem. É alguma coisa que se constrói. Que se constrói no tempo. O que não quer dizer que não seja algo que possa se dar muito rapidamente ou que não possa ser algo muito, muito, muito demorado... (risos) Não é um tempo que se meça pelo relógio ou pelo calendário. É um tempo que é interno à comunicação. É o tempo que se leva para ter alguma coisa em comum, para partilhar alguma coisa. Bom, essa, então, seria uma primeira aproximação da comunicação, digamos, humana. Há, entretanto, uma espécie de paradigma da comunicação que tende a ver fenômenos de comunicação em toda parte e não somente entre os seres humanos. Essa tendência apareceu nos anos 30-40-50 do século XX, quando as principais máquinas passaram a ser máquinas de comunicar: o telefone e, bem rapidamente, o computador. Houve, então, um grande movimento científico interdisciplinar, chamado Cibernética, que procurou ver tanto os fenômenos vivos quanto a Engenharia, quanto a Psicologia, quanto a Antropologia, em termos de estruturas de informação e comunicação. E, especialmente, começou-se a ver o vivo, não como substância viva ou fluido vital ou qualquer coisa assim, mas como uma certa complexidade, uma certa configuração de sistemas de comunicação. Quer dizer: como sistemas de comunicação abertos, alimentados pela variedade, com alças de retroação etc.; e por isso eles são finalizados, e por isso eles têm uma certa estabilidade, enfim... Este movimento interdisciplinar durou uns 20-30 anos e se dissolveu, exceto talvez na Rússia, onde subsistem algumas sociedades científicas em Cibernética... (risos) De qualquer forma, ele marcou profundamente a ciência contemporânea, em particular a Biologia. Se observamos, por exemplo, a Biologia Molecular: todo o seu vocabulário – o que, aliás, é totalmente criticável – é um vocabulário da informação e da comunicação: o código, a decifração etc.. Nesse caso, pode-se dizer que vivemos num paradigma "comunicacional". Pode-se dizer que a comunicação é alguma coisa que é constitutiva dos objetos: da Biologia ou da Sociologia ou da Psicologia. O que é um psiquismo? É uma espécie de sistema de comunicação, ele mesmo composto de microssistemas de comunicação etc.; o mesmo para o corpo, o mesmo para a sociedade etc. Essa idéia me parece interessante, uma vez que ela vem abalar a noção de substância. Se olharmos de perto um objeto que tem a aparência de um objeto substancial ou individual (com um interior, com um exterior etc.), se olharmos bem o que é este objeto, se o olharmos finamente, veremos que são elementos em comunicação, uns com os outros, e há entre eles... Bom... (risos) Entre eles existem interfaces. Como eles estão em comunicação, uns com os outros, evidentemente eles possuem uma interface, uns com os outros; e esta interface é sempre uma interface de transformação, de tradução, de complicação, ela pode ser um semicondutor (que às vezes deixa passar, às vezes não) etc. etc.. E se você olhar bem como é feita a interface, se você faz um zoom nela, o que verá serão ainda interfaces em comunicação com outras etc.. Por:Patrici Rovanho, Larissa Reis, Mariana Moura e vanessa moschiar

Nenhum comentário:

Postar um comentário